BACK DOOR Newsletter on East
Timor home
March news
"O sistema de saúde
actual corre o risco de ser pautado por metodologias e equipamentos inadequados
à realidade timorense, sobretudo após a retirada dos técnicos
e organismos estrangeiros. O desenvolvimento não tem de passar obrigatoriamente
pela implementação de sistemas sofisticados de topo de gama.
A preocupação deverá ir antes de encontro às
reais necessidades e capacidades da população, de forma a
poderem ser os timorenses a criarem as suas própria instituições
e a definirem as suas prioridades. Provavelmente, os resultados seriam
mais lentos e menos brilhantes a curto-prazo, mas com certeza mais sólidos
e duradouros." Observatório Timor
Leste
Ref.: HEA02-12/03/2001por
Assunto: Sistema de saúde: sustentável
no futuro?
Resumo
Os
Factos
Conclusões
Nota
Resumo:
Os serviços de saúde em Timor
Leste devem evoluir de uma fase de emergência, caracterizada pela
entrada de um grande número de organismos de ajuda internacional,
para serviços dependendo essencialmente dos meios próprios
dum país em via de desenvolvimento. Neste novo contexto os aspectos
essenciais a ponderar são os que vão permitir a manutenção
de estruturas que estejam ao serviço da maioria da população.
O sistema de saúde a estabelecer-se deve assim considerar as necessidades
do território, onde as doenças mais frequentes, como a tuberculose,
escondem na realidade deficiências básicas aos níveis
da alimentação, dos cuidados de higiene e das condições
de alojamento; os recursos técnicos, principalmente os recursos
humanos capazes de intervir neste sector; e, finalmente, o orçamento
disponível para encarar as necessidades.
Os factos:
1. Indicadores de saúde
Apesar de não estar totalmente assegurada
a sua fiabilidade, os indicadores de saúde publicados por diversas
agências internacionais são representativos de um estado de
saúde bastante débil em Timor Leste. Entre os mais reveladores
encontram-se a taxa de mortalidade infantil (até um ano de idade),
que passou de 70/90, no período anterior à crise pós-referendo,
para 135 por 1.000 nascimentos (na Indonésia, o valor é de
48/1.000, estando na 109ª posição em 174 países,
no Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD); a taxa de mortalidade
maternal, estimada, e provavelmente sub-avaliada, entre 300 e 850/100.000,
em partos assistidos e não assistidos (Indonésia 390), quando
anteriormente rondava os 450-500/100.000; a % de partos assistidos por
pessoal de saúde qualificado na ordem dos 20%, contra os 40% anteriores;
e a esperança média de vida inferior a 50 anos de idade (Indonésia
65 anos).
Estes valores posicionam Timor Leste a
par dos países mais necessitados do mundo sub-desenvolvido. O recuo
poderá ser explicado por razões de diversa ordem, entre estas
parece sobressair a mudança do modelo do sistema de serviço
de saúde: o indonésio, com funcionários pouco qualificados,
mas numerosos; e o actual, mais qualificado, mas muito menos numeroso.
2. Doenças
A malária, a tuberculose e a diarreia
continuam a ser apontadas como as principais causas de doença e
morte. Apesar de ter sido implantado, em Setembro de 1999, um sistema de
registo de doenças [The disease surveillance system], o número
de casos conhecidos depende fundamentalmente da entrega de relatórios
semanais por parte das organizações de saúde no terreno
à OMS.
Malária
-
A malária é endémica,
presente em todo o território, e com maior mortalidade nas crianças.
No 1º semestre de 2000, cerca de 62.000 (aproximadamente 8% da população)
casos suspeitos de malária (com 40 mortes) tinham sido registados
pela OMS. Em conjunto com a Merlin e a International Rescue Committee,
a OMS implementou uma campanha (Roll Back Malaria) de combate à
malária, cujas acções visam uma maior prevenção.
Esta passa primeiramente pela difusão da utilização
de redes de mosquitos, mas também pelo desenvolvimento de estudos
e tratamento da malária, e por equipar os distritos com sistemas
de laboratório e estruturas de pré-diagnóstico.
-
O estabelecimento de um programa nacional
de controlo de doenças transmissíveis por mosquitos [malária
e dengue] encontra-se em preparação pela OMS, em coordenação
com uma iniciativa de saúde ambiental. Projectos de desenvolvimento,
sobretudo nas áreas de "água e saneamento" e agricultura
(irrigação) podem estar associados à propagação
destas doenças, devendo estar sujeitos a uma avaliação
prévia sobre possíveis impactos ambientais, de forma a antecipar
consequências inesperadas ao nível da saúde (MERLIN,
20-7-00; WHO, 18-8-00).
Tuberculose
-
Em Junho de 2000, estimava-se em cerca de
8.000 os casos activos de tuberculose, 1% do total da população,
dos quais mais de 1.300 estavam sob tratamento, e 31% eram de doentes com
idade inferior a 15 anos (WHO, 18-8-00).
-
Um programa nacional de combate à doença
tem vindo a ser implementado em conjunto pela OMS, a Caritas Noruega, em
colaboração com a Caritas Timor Leste, e a Menzies School
of Health Research, Austrália. Em Julho, estava operacional em 9
distritos (ONU, S/2000/738, 26-7-00), 91% de 1.300 casos em tratamento
estava a ser tratado em apenas 3 clínicas (Motael, Bairo Pite e
Becora), todas em Díli, cada uma recebendo entre 25 a 30 novos pacientes
por semana (WHO, 18-8-00); em Novembro, o número de casos em tratamento
em todo o país era de 2.800 (UNTAET, 2-11-00), progresso para o
qual tinham contribuído o reinicio do programa em todos os distritos
e a formação dada a cerca de 90 pessoas para a identificação
da doença (DHS, Novembro 2000).
Campanhas de vacinação
-
Uma 1ª campanha de vacinação
foi lançada pela UNICEF, em conjunto com a OMS e outras organizações,
no início de Março [Expanded Programme of Immunization] (UNICEF,
5-7-00); um dos resultados alcançados foi a imunização
de mais de 45.000 crianças contra o sarampo, limitando significativamente
a ocorrência da doença (WHO, 18-8-00).
-
No âmbito da campanha mundial "Race
to Reach the Last Child: Countdown to a Polio-free World", foram levados
a cabo "Dias de Imunização Nacional", com a intenção
de vacinar mais de 100.000 crianças, com menos de 5 anos de idade,
contra o Polio, sendo acompanhada da distribuição de vitamina
A. Esta campanha foi promovida pela Divisão de Serviços de
Saúde (DHS) da Administração Transitória de
Timor Leste (ETTA) e apoiada por líderes nacionais, voluntários,
ONG e agências internacionais e pelas PKF. A campanha teve a duração
de um mês, entre Novembro e Dezembro de 2000 (UNTAET, 13-10 e 3-11-00),
estimando-se uma cobertura de 80% da população alvo (Joint
Donor Review Mission, Nov. 2000).
3. Malnutrição
Cerca de 3 a 4% das crianças entre
6 meses e 5 anos de idade sofrem de malnutrição Algumas características
são-lhes comuns: o ciclo vicioso da pobreza, acompanhado de uma
dieta carenciada, e a falta de conhecimentos por parte das mães
em cuidados de puericultura (WHO, 18-8-00). Bolsas de malnutrição
parecem existir em particular no distrito de Ermera, provavelmente por
ser uma zona de plantação de café, e não de
agricultura de subsistência. Um relatório da Timor Aid chama
a atenção das agências e ONG internacionais para a
necessidade de correlacionarem saúde e nutrição: (...)
Se uma percentagem significativa da população está
a sofrer de doenças menores e essas pessoas dizem ter acesso limitado
aos alimentos (não têm o suficiente para comer), uma investigação
profissional poderá montrar que à dieta da população
em geral faltam determinados nutrientes; ou seja, que essa carência
está a ter um impacto prejudicial na saúde da população"
(Timor Aid, 30-11-00).
4. Serviços oficiais de Saúde
-
Em Dezembro de 1999, foi criado um Grupo de
Trabalho de Profissionais de Saúde de Timor Leste (ETHPWG), com
o objectivo de se começarem a definir linhas de orientação
para a implementação de um futuro sistema de saúde
no território. Face à necessidade premente de coordenar as
acções na área da saúde, ao serem promovidas
por um conjunto bastante amplo e diversificado de actores, a UNTAET formou,
em Fevereiro de 2000, a Autoridade Interina de Saúde (IHA). Esta
estrutura, composta por 16 funcionários timorenses e 7 estrangeiros,
pretendia passar de actividades dispersas no sector da saúde para
um serviço de saúde unificado [vd. ETO HEA01].
-
Entre Abril e Dezembro de 2000, uma missão
de planeamento em conjunto com a IHA desenvolveu o Programa de Reabilitação
e de Desenvolvimento do Sector da Saúde, no âmbito do fundo
para Timor Leste administrado pelo Banco Mundial [TFET]; em Agosto, a IHA
foi substituída pela Divisão de Serviços de Saúde
(DHS), sob a supervisão do Departamento dos Serviços Sociais
da ETTA, cujo responsável é o Padre Filomeno Jacob (DHS,
Nov. 2000).
5. Prestadores de cuidados de saúde
Em Novembro, os serviços de saúde
em Timor Leste eram garantidos por um variado número de agentes:
15 ONG internacionais, 6 ONG locais, 23 postos de saúde da Igreja,
4 contingentes militares e 2 entidades privadas.
Organizações Não-governamentais
(ONG)
-
As ONG responderem eficazmente à crise
humanitária que se seguiu ao referendo de 30 de Agosto de 1999.
Contudo, o papel desempenhado por estas tem vindo a sofrer alterações
à medida que se processa a transição da fase de emergência
para a de desenvolvimento.
-
Com o intuito de alargar o fornecimento de
cuidados de saúde a toda a população, de modo homogéneo
e integrado, a IHA tomou a iniciativa de requisitar propostas aos fornecedores
de cuidados de saúde existentes no território, na forma de
Planos de Saúde Distritais (DHP), que integrassem os serviços
de saúde para todo um distrito e estivessem em concordância
com o plano nacional de saúde. Depois da apresentação
dos DHP pelas ONG líderes de cada distrito, seguiu-se o estabelecimento
de Comités distritais de saúde e a elaboração
de um Memorando de Compromisso entre aquelas e a DHS.
-
Em Setembro, os 12 DHP já estavam preparados
[o plano de saúde para o distrito de Dili está a ser elaborado
separadamente], mas apenas 4, nos distritos de Baucau, Bobonaro, Aileu
e Liquiça, tinham sido efectivamente lançados (WB-TFET update
no.3, 6-10-00). Em Novembro, a situação mantinha-se (Joint
Donor Review Mission, Nov. 2000). Uma das razões para o atraso tem
sido a dificuldade de em recrutar funcionários de saúde (WB-TFET
update no.6, 9-2-01).
-
O anúncio pela Cruz Vermelha Internacional
(ICRC) que abandonará em Junho o Hospital Central de Dili que suportava
totalmente desde Outubro de 1999, coloca graves problemas. Nenhuma ONG
tem capacidade para tomar conta deste hospital (210 camas, 26 médicos
estrangeiros, 311 profissionais timorenses), e os serviços oficiais
de saúde ainda não estão preparados para o fazer.
Este caso pode ser um anúncio do que acontecerá quando as
ONG internacionais deixarem de poder contar com os fundos do TFET e outros
financiamentos de emergência para permanecer em Timor Leste (ICRC,
28-9-00).
Contingentes militares
Muitos cuidados de saúde mais especializados,
como saúde dental, oftalmologia, ou até mesmo de cirurgia,
têm sido fornecidos pelos contingentes militares estacionados em
Timor Leste, nomeadamente pelos batalhões do Japão, Nova
Zelândia e Coreia, ou por equipas militares de visita ao território,
como dos Estados Unidos.
Outros
-
As clínicas da Igreja encontram-se
espalhadas por todo o território, desempenhando, já desde
o período da ocupação indonésia, um papel importante
na prestação de cuidados de saúde à população.
Porém, não estão enquadradas na DHS da ETTA, sendo
apoiadas e financiadas pela própria Igreja.
-
A Cooperativa de Café de Timor [NCBA]
colocou em funcionamento 3 postos de saúde, e pretende estabelecer
mais 14, localizadas nos distritos produtores de café (The La'o
Hamutuk Bulletim, 17-11-00). A NCBA (National Cooperative Business Association)
conta com o financiamento da USAID (USAID, 3-10-00).
6. Infra-estruturas de saúde
-
O Programa de saúde do Banco Mundial
diminuiu consideravelmente o número de estruturas de saúde
a manter, sobretudo em resultado de futuros constrangimentos financeiros
[vd. ETO HEA01]. Em Junho de 2000, existiam 150 estruturas de saúde
em funcionamento, muitas ainda a precisarem de reparação,
e entre as quais apenas 23 possuíam camas. De um total de 592 camas,
metade encontrava-se em Dili (UNTAET, 29-8-00). Em Janeiro deste ano, estavam
em funcionamento 3 hospitais (Baucau, Dili e Oecussi) dos 5 previstos,
116 equipas móveis, 85 postos de saúde e 71 centros de saúde
comunitários (ONU S/2001/42, 20-1-01).
-
De acordo com a DHS, em Novembro, pelo menos
50 edifícios tinham sido reabilitados e recuperados, principalmente
por ONG, e concedidos contratos para a construção de 25 centros
de saúde. Kits de equipamento e de material foram também
distribuídos e uma lista de equipamento para centros de saúde
comunitários e postos de saúde padronizada e finalizada (DHS).
-
O laboratório central de saúde,
recuperado pela UNICEF, com o apoio da Universidade do Território
do Norte da Austrália, começou a funcionar (UNICEF, 15-1-01).
-
Uma das dificuldades que se coloca é
o fornecimento e existência de equipamentos médicos, amplamente
destruídos. Em Novembro, uma missão conjunta australiana
esteve em Timor para fazer o levantamento do equipamento médico
existente, como ambulâncias, e estudar a sua relação
com os serviços de saúde timorenses (UNTAET, 21-11-00).
-
Um hospital (Liquiça) foi reconstruído
pelos militares portugueses e o município de Oeiras (Portugal),
com os equipamentos para o apetrechar em Timor. Porém, este esforço,
realizado antes de ser estabelecido o plano nacional das infra estruturas
de saúde, revelou-se inadequado por o plano não comportar
um hospital em Liquiça, próximo de Dili (Público,
Portugal, 6-3-01).
7. Recursos humanos
-
Dos 135 médicos a trabalhar no território
antes do referendo, apenas 20 permaneceram posteriormente; mas, 80% das
enfermeiras e parteiras eram timorenses e ficaram em Timor Leste (ONU CCA,
Nov.2000). Esta proporção leva ao redimensionamento e à
redefinição do papel e responsabilidades da força
médica existente, em particular dos funcionários de saúde
auxiliares: "funcionários de saúde de todas as categorias
terão de assumir papéis e responsabilidades extra, tanto
em áreas clínicas como administrativas. É crucial
que aos funcionários de saúde seja dada formação
adequada às suas novas funções." (WHO, 18-8-00).
-
O número de funcionários a contratar
pela ETTA também tem sido alvo de controvérsia, face à
diferença em relação ao tempo indonésio (na
altura, 3.500 funcionários): a UNTAET propõe 1.480 e os dirigentes
timorenses (CCN/ CNRT), ao terem em conta a futura escassez de recursos
financeiros do Estado e a subsequente dificuldade em assegurar a sustentabilidade
do sector de saúde, propõem 1.087 (WHO, 18-8-00). Em Dezembro,
o n.º de elementos contratados era de 1.077, entre os quais 54 a título
permanente, e 1.023 temporários (UNTAET e BM, 6-12).
Formação/ educação
na saúde
-
Acções de formação
de mais variada índole têm sido ministradas a pessoal timorense:
formação em bacteriologia dirigida a técnicos de laboratório
(UNTAET, 17-7-00); 2º curso de formação à Associação
de Parteiras de Timor Leste pela UNICEF (UNTAET, 27-7-00). A um nível
mais informal tem sido providenciada formação prática
no local de trabalho. Apesar deste esforço, a OMS considera que
poucos cursos têm sido levados a cabo para aumentar a capacidade
específica dos recursos humanos timorenses (WHO, 18-8).
-
Um Centro Nacional de Formação
e Educação da Saúde (NCHET) está em vias de
ser estabelecido, indo integrar várias funções e disciplinas.
Este terá duas responsabilidades principais: completar os estudos
de alunos com a sua formação quase finalizada; e elevar a
formação para os existentes funcionários da saúde,
para melhor se adaptarem às necessidades (DHS e Joint Donor Review
Mission, Nov. 2000).
8. Produtos farmacêuticos e abastecimento
de medicamentos
O Armazém Central de Produtos Farmacêuticos,
recuperado pela acção da UNICEF, da Goal e da IHA, foi inaugurado
em Dili, em Abril de 2000. Este tem funcionado como o ponto de distribuição
central de produtos farmacêuticos em Timor Leste. Desde então,
esta área foi alvo de alguns desenvolvimentos: uma lista de medicamentos
essenciais foi elaborada por um consultor da OMS, com o objectivo de delinear
e assegurar uma prescrição eficaz e racional de fármacos.
(UNTAET, 21-7-00); alguns avanços foram feitos em termos de legislação
e regulamentação de produtos farmacêuticos (UNTAET
e BM, 6-12-00); e um novo Armazém de Medicamentos começou
a ser estabelecido (DHS, Nov.2000).
9. Saúde reprodutiva, HIV/SIDA e DST
-
Em Julho, uma missão de reconhecimento
foi conduzida pela UNICEF, em colaboração com a UNFPA e a
UNAIDS [agências das Nações Unidas para a população
e HIV/SIDA, respectivamente]. Apesar da falta de informação
disponível, o relatório indica que os casos de HIV/ SIDA
são em número reduzido, não podendo ser considerada
uma epidemia em Timor Leste. Porém, sublinha o facto de se encontrarem
reunidas no território uma combinação de condições
favoráveis ao seu desenvolvimento no curto-prazo: p. e., a pouca
percepção quanto a doenças sexualmente transmissíveis
(DST) e a HIV/ SIDA, a pouca prevenção e cuidados; o aumento
significativo de prostituição feminina e masculina; a par
de constrangimentos culturais e religiosos na utilização
de meios contraceptivos e na discussão aberta sobre estes assuntos.
O relatório identifica também determinados grupos mais vulneráveis,
como o grande número de jovens expatriados, ou que interromperam
os seus estudos, a população volátil (comerciantes,
outros expatriados) e os militares, polícias e guardas (UNTAET,
17-7-00 e ONU CCA, Nov. 2000).
-
Está a ser constituído um grupo
especializado da ONU para DST e HIV/ SIDA, em coordenação
com a DHS, para preparar, formar e implementar actividades neste campo,
assim como funcionar como elo de ligação entre a DHS, as
ONG e os departamentos das N.U. (UNTAET, 15-12-00).
10. Saúde mental e apoio psico-social
-
A IRCT (The International Rehabilitation Council
for Torture Victims) elaborou um estudo sobre a extensão da tortura
e do trauma, e do seu impacto na população, na situação
de pós-conflito. O estudo revela que 97% da amostra (1.033 lares,
englobando cerca de 75.000 indivíduos) passou por pelo menos um
evento traumático, 57% experienciou algum tipo de tortura, 12% perdeu
filhos vítimas de violência política, 14% perdeu o
marido ou a mulher, 22% testemunhou a morte de um familiar ou amigo, e
cerca de 34% sofre de stress pós-traumático. Os resultados
deste estudo devem servir de base para a constituição do
Programa Nacional de Reabilitação Psico-social, vindo sublinhar
fortemente a necessidade de avançar rapidamente com actividades
neste campo da medicina (Lancet, vol. 356, 18-11-00); sendo que até
Outubro, não existia financiamento directo pela DHS para esta área,
e os cuidados existentes eram fornecidos por apenas duas ONG, a PRADET
e a FOKUPERS (UNTAET, 5-10-00). Em Novembro, com o apoio do governo australiano,
psiquiatras começaram a deslocar-se ao território por períodos
de uma semana, em cada mês (The La'o Hamutuk Bulletin, 17-11-00 e
DHS, Nov.2000).
-
Estes cuidados dificilmente poderão
ser assegurados através de tratamentos individuais de foro psiquiátrico
ou psicológico. Uma situação como a de Timor Leste,
de repressão e violência a toda uma população,
por um período tão alargado de tempo, não encontra
uma solução directa neste tipo de medicina, em que além
da questão médica em si, outros aspectos merecem atenção,
como o facto da ausência de médicos timorenses neste campo
dificultar a comunicação (língua e cultura). As pessoas
atingidas dizem contar em primeira instância com a família,
a Igreja e a comunidade para assistência (Lancet, vol. 356, 18-11-00),
mas existem casos onde as tradições culturais, como na rejeição
das mulheres violadas e dos filhos nascidos de violações,
agravam os traumas sofridos.
11. Programa de Reabilitação
e Desenvolvimento do Sector da Saúde
-
O Programa de Reabilitação e
Desenvolvimento do Sector da Saúde, financiado pelo TFET administrado
pelo Banco Mundial, tem por objectivos específicos restaurar o acesso
a serviços de saúde básicos e desenvolver uma política
e um sistema de saúde. O acordo para a 1ª tranche de subsídios
(12.7 milhões de dólares, num total de cerca de 38 milhões
para um período de 3 anos) foi assinado em Junho de 2000, para aplicar
nos primeiros 15 meses do projecto [vd. ETO HEA01].
-
Uma missão conjunta deslocou-se ao
território entre 10 e 22 de Novembro, tendo como objectivos avaliar
o nível de implementação da 1ª fase do programa
[a desenvolver-se entre Julho de 2000 e Agosto de 2001]; iniciar a discussão
para a preparação da 2ª fase, de apoio ao Programa de
Saúde de Timor Leste, que cobrirá o período entre
Julho 2001 e Junho de 2003; e, por último, explorar formas que fortaleçam
a continuação da opção de acesso alargado aos
serviços de saúde (Joint Donor Review Mission, Nov. 2000).
12. Outros fundos
Para além do fundo multilateral do
Banco Mundial, e do orçamento da ETTA, existem outras fontes de
financiamento na base dos serviços de saúde: o apoio humanitário
dado às ONG, provindo uma grande parte da ECHO, a cooperação
bilateral e a cooperação técnica por parte das agências
das Nações Unidas.
Conclusões:
O sector de saúde em Timor Leste
enfrenta um vasto leque de problemas e necessidades difíceis de
contornar face à situação do território e à
exigência do factor tempo para os solucionar. Caso se tome em linha
de conta que qualquer serviço de saúde tem em consideração
os doentes, os meios materiais disponíveis e os recursos humanos
qualificados, necessários para responder eficazmente a esses doentes
com os meios existentes, outros aspectos se colocam:
1. As doenças mais frequentes
e mortíferas são a malária, a tuberculose e as diarreias.
Inerente ao seu controlo pode estar uma maior prevenção,
nomeadamente no que concerne o fornecimento de melhores condições
de saneamento e higiene alimentar às populações. Neste
sentido, existe a necessidade já identificada pela OMS de combater
o problema de doenças transmissíveis por mosquitos na fonte,
procurando opções mais efectivas e sustentáveis. Nas
palavras de Sérgio Lobo, médico timorense, "a maior parte
das doenças em Timor Leste não necessita de cuidados médicos.
Enfermeiras e funcionários locais treinados podem tratar muitas
destas doenças com base nos recursos existentes" (La'o Hamutuk);
2. Chegadas numa situação
de emergência, as organizações estrangeiras em Timor
Leste tiverem uma intervenção própria a este tipo
de situações particulares, para as quais estão geralmente
vocacionadas. A sua integração num plano de saúde
global e de longo prazo é com certeza estranho às suas especificidades,
competências e hábitos de trabalho, ou até mesmo fora
dos seus objectivos e/ou meios de financiamento;
3. A criação de um
corpo médico suficiente é um objectivo de médio/longo
prazo, por existir em Timor Leste um número tão reduzido
de quadros qualificados, e cuja formação será necessariamente
lenta. A prioridade deve ser então dirigida a profissionais de saúde
capazes de responder eficazmente às necessidades actuais e prementes
da população. Se não há tempo para formar pessoal
de saúde nas diversas especialidades da medicina, então,
enquanto esses quadros se constituem, a aposta terá de ser direccionada
para os meios existentes, nomeadamente para a redefinição
do papel que as enfermeiras e parteiras, através da sua formação
e treino, poderão desempenhar;
4. Existe uma aparente contradição
entre o desejo de providenciar um sistema de saúde público,
grátis e acessível a toda a população e os
recursos financeiros do novo país. O Bispo Belo afirma que "a
saúde é tanto uma questão de vontade política
como o é de nível económico" (CNS, 5-7-00), mas
não sendo os recursos ilimitados haverá necessidade de fazer
algumas escolhas e estabelecer prioridades que sirvam ao maior número
de doentes. Uma solução de compromisso poderia ser a divisão
do tipo de cuidados de saúde fornecidos à população:
por um lado, o campo da prevenção e da luta às doenças
mais generalizadas, que seria assegurado pelos serviços públicos,
e, por outro, os cuidados mais especializados, fornecidos por serviços
privados, ou ONG;
5. O sistema de saúde actual
corre o risco de ser pautado por metodologias e equipamentos inadequados
à realidade timorense, sobretudo após a retirada dos técnicos
e organismos estrangeiros. O desenvolvimento não tem de passar obrigatoriamente
pela implementação de sistemas sofisticados de topo de gama.
A preocupação deverá ir antes de encontro às
reais necessidades e capacidades da população, de forma a
poderem ser os timorenses a criarem as suas própria instituições
e a definirem as suas prioridades. Provavelmente, os resultados seriam
mais lentos e menos brilhantes a curto-prazo, mas com certeza mais sólidos
e duradouros.
Nota:
Documentos e informações recolhidos sobre este
assunto pelo Observatório Timor Leste, entre 1-7-2000 e 28-2-2001,
foram reunidos num caderno temático de 46 páginas, "Health
- ref. HEA02" (para mais informações e encomendas contactar
o Observatório Timor Leste). Para uma outra visão sobre o
tema da saúde, aconselhamos a leitura do Boletim La'o Hamutuk, que
poderá ser consultado na seguinte página de Internet: http://www.etan.org/lh.
Observatório
para o acompanhamento do processo de transição em Timor Leste
um programa da 'Comissão para os Direitos do Povo Maubere'
Coordenadora: Cláudia Santos
Rua Pinheiro Chagas, 77 2ºE - 1069-069
Lisboa - Portugal
tel.: 21 317 28 60 - fax:
21 317 28 70 - correio electrónico:
cdpm@esoterica.pt
URL: http://homepage.esoterica.pt/~cdpm
Observatório
Timor Leste
Duas Organizações Não
Governamentais portuguesas, a COMISSÃO PARA OS DIREITOS DO POVO
MAUBERE (CDPM) e o grupo ecuménico A PAZ É POSSÍVEL
EM TIMOR LESTE que, desde o início da década de oitenta,
se solidarizam com a causa do Povo de Timor Leste, tomaram a decisão
de criar o OBSERVATÓRIO TIMOR LESTE. A vocação do
Observatório Timor Leste é, no quadro das recentes alterações
do regime de Jacarta face a Timor Leste, o acompanhamento, a nível
internacional, do processo negocial e, no interior do território,
do inevitável período de transição que se anuncia.
E-mail: cdpm@esoterica.pt
Homepage: http://homepage.esoterica.pt/~cdpm/framep.htm
English:
East
Timor Observatory
ETO was set up by two Portuguese NGOs
- the Commission for the Rights of the Maubere People (CDPM) and
the ecumenical group Peace is Possible in East Timor, which
have been involved in East Timor solidarity work since the early eighties.
The aim of the Observatory was to monitor East Timor's transition process,
as well as the negotiating process and its repercussions at international
level, and the developments in the situation inside the territory itself.
E-mail: cdpm@esoterica.pt
Homepage: http://homepage.esoterica.pt/~cdpm/frameI.htm
French:
Observatoire
Timor-Oriental
Deux Organisations Non Gouvernementales
portugaises, la ‘Commission pour les Droits du Peuple Maubere’ et l’association
oecuménique "La Paix est Possible au Timor Oriental", qui se solidarisent
avec la cause du peuple du Timor Oriental depuis le début des années
80, ont pris la décision de créer un OBSERVATOIRE TIMOR ORIENTAL.
La vocation de cet observatoire est d’accompagner le processus de transition
du Timor Oriental, aussi bien le processus de négociation que ses
répercussions au niveau international et l’évolution de la
situation à l’intérieur du territoire.
E-mail: cdpm@esoterica.pt
Homepage: http://homepage.esoterica.pt/~cdpm/framef.htm
See also:
Tetum:
Boletim La’o Hamutuk:
[Tetum PDF format]
Vol. 1, No. 3. 17 Novembro
2000 Hari Sistema Saude Nasional iha Timor Lorosa’e: http://www.etan.org/lh/PDFs/LHbul3tm.pdf
English:
La'o Hamutuk Bulletin:
[English
PDF format]
Vol. 1, No. 3: 17 November
2000 Building a National Health System for East Timor: http://www.etan.org/lh/PDFs/lhbul3en.pdf
BACK DOOR Newsletter on East
Timor home
March news
Website: http://www.pcug.org.au/~wildwood
Email: wildwood@pcug.org.au
Postal address: BACK DOOR GPO Box 59 Canberra
City ACT 2601 Australia
Receive FREE weekly email
Web-updates: email wildwood@pcug.org.au
and include the words "Subscribe BACK DOOR" in the message header.
more
info