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Timor home
"Xanana Gusmão acusou a missão das NU de
ter falhado no envolvimento dos timorenses no processo transitório
para a independência. “Não estamos interessados numa herança
de carros e leis, nem estamos interessados numa herança de planos
de desenvolvimento para um futuro concebido por outros que não os
timorenses. Não estamos interessados em herdar uma racionalidade
económica que coloca de lado a complexidade social e política
da realidade timorense, nem desejamos herdar os pesados mecanismos de tomada
de decisão e implementação de projectos nos quais
o papel dos timorenses é o de dar o seu consentimento como observadores
ao invés de agentes activos que deveríamos começar
a ser.” (Sidney Morning Herald, 10-10-2000)." OTL
- Observatório Timor Leste
Ref.: GOV01-06/11/2000por
Assunto: Transição, a meio caminho para a independência
Resumo
Contexto
Os factos
1. Duração do mandato das Nações
Unidas
2. Até Julho de 2000 - a UNTAET procura afirmar-se
no terreno.
3. A partir de Julho - Partilhar o poder e as críticas.
4. Condições para a independência
5. Eleições
Conclusão
Nota
Resumo:
A construção do novo Estado de Timor Lorosae pela administração
transitória das Nações Unidas não é
a construção de um Estado ideal, imaginado por técnicos
internacionais, criado a partir do zero e entregue aos timorenses no fim
do período de transição, “chaves-na-mão”. A
evolução para uma concepção mais política,
onde os timorenses têm maior participação na definição
das linhas mestres do novo Estado, parece ter sido facilitada pela presença
de dois homens-chave, de um e outro lado, Sérgio Vieira de Mello
e Xanana Gusmão. Muitas dificuldades perduram, muitas expectativas
frustradas provocam o descontentamento dos timorenses. As críticas
foram naturalmente dirigidas contra os funcionários internacionais
que detêm o poder e os recursos, mas poderão estender-se aos
dirigentes timorenses que começam a partilhar com aqueles o poder.
top
Contexto :
A resolução 1272 do Conselho de Segurança (CS), de
25 de Outubro 1999, instituiu a Administração Transitória
das Nações Unidas para Timor Leste (UNTAET), conferindo-lhe
“inteira responsabilidade na administração de Timor Leste”
e capacitando-a com o poder “de exercer toda a autoridade legislativa
e executiva, incluindo na gestão da Justiça”; poderes
que ultrapassam em muito os poderes normalmente atribuídos a um
Governo em regime democrático, mas que pretendem responder a uma
situação excepcional.
Além de restabelecer a segurança, reconstruir as infra-estruturas
e organizar os serviços públicos essenciais, o CS sublinhava
nas tarefas da UNTAET “o apoio à criação de capacidades
para um governo próprio” e insistia na “necessidade da UNTAET
consultar e cooperar estreitamente com o povo de Timor Leste afim de cumprir
o seu mandato eficazmente tendo em vista o desenvolvimento de instituições
democráticas locais... , e a transferência para estas instituições
das suas funções administrativas e de serviço público”.
Nota: Fora desta análise ficam as forças militares, o
poder judicial e o poder económico, quase totalmente nas mãos
dos estrangeiros. Os contra-poderes timorenses, como a comunicação
social ou os sindicatos, são ainda embrionários. A influência
dos partidos políticos é intencionalmente limitada nesta
fase de transição. top
Os factos:
1. Duração do mandato das Nações
Unidas
-
A resolução 1272 do Conselho de Segurança (CS) de
25-10-1999 “estabelece a administração transitória
(UNTAET) por um período inicial até 31 de Janeiro de 2001”,
mas não adianta uma data final. Em 29 de Janeiro, Sérgio
Vieira de Mello, representante especial do Secretário Geral das
Nações Unidas e Administrador Transitório (AT), fala
em dois anos até à independência total (Reuters). Kofi
Annan é menos taxativo: “as NU devem guiar-se por resultados
concretos mais do que por um calendário estimado”, e acrescenta:
“não queremos protelar, não queremos ficar mais do que
o tempo necessário. Por outro lado, penso que seria irresponsável
não fazer tudo o que pudermos antes de sairmos” (AAP, 22-2-00).
“O CS deve estar preparado para estender o mandato (...) que expira
em Janeiro 2001” (Kofi Annan, NU, New York, 29-2-2000).
-
Luís André Pinto, chefe das Igrejas Cristãs de Timor
Leste (protestantes) diz que “foi acordado entre dirigentes políticos
timorenses e figuras religiosas preparar a independência de Timor
Leste em dois anos”, mas “a UNTAET não ajuda seriamente.
Pelo contrário há indicações de que os ocidentais
querem ficar mais tempo”. “O presidente do CNRT, Xanana Gusmão,
disse que os oficiais da UNTAET ficariam em Timor por dois anos e que quanto
mais cedo deixarem Timor Leste, melhor”, acrescenta Luís Pinto
(Antara, 23-03-2000).
-
"A independência integral poderá surgir em qualquer altura
após as eleições e à adopção
da Constituição. As eleições poderiam ter lugar
no início de Abril 2001 ou o mais tardar em Novembro. Em qualquer
dos casos, é improvável que a administração
timorense esteja plenamente funcional nessa data”, disse Peter Galbraith
[director dos Assuntos Políticos da UNTAET]” (UNTAET, briefing 30-5-2000).
top
2. Até Julho de 2000 - a UNTAET procura afirmar-se
no terreno.
a) Primazia à UNTAET ou ao CNRT?
-
Não há dúvidas sobre as prioridades: segurança,
ajuda humanitária, reconstrução, emprego, educação,
saúde, agricultura..., nem sobre o seu carácter de urgência.
Tudo se complica quando se coloca a questão de se saber quem faz
o quê? O CS deu toda a autoridade à UNTAET, mas pediu-lhe
para dar “o apoio à criação de capacidades para
um governo próprio”, este deveria, por definição,
ser o objectivo de uma estrutura transitória.
-
“O CNRT tem um grande apoio e a confiança da maioria da população;
e é bem coordenado e eficiente na condução dos programas”,
constata um relatório da UNTAET da região de Liquiça.
Outro relatório, agora do distrito de Ermera, reconhece que “o
envolvimento do CNRT na distribuição da ajuda humanitária
é muito importante pelo facto de as ONG terem sido incapazes de
organizar a distribuição dos alimentos”. Contudo, os
dois relatórios concluem que é preciso reforçar a
capacidade da UNTAET e reduzir o envolvimento do CNRT, por este “gerar
pressão pela população” (Green Left Weekly, 19-1-00).
[o CNRT, Conselho Nacional da Resistência Timorense, reúne
a quase totalidade das forças que defenderam a independência
em Agosto].
-
O peso maior na administração transitória pertence
aos membros do quadro internacional, muitos deles com contratos temporários
de 6 meses, o que significa que têm forte probabilidade de chegar
ao fim do contrato antes de se adaptarem à realidade local. O dirigente
da igreja protestante Luís Pinto afirma ter chegado a conclusão
que a UNTAET e as ONG internacionais não confiam na capacidade dos
timorenses para preparar a independência. “o processo está
a ser conduzido lentamente. Actualmente os timorenses só podem trabalhar
como motoristas, seguranças e intérpretes quando há
muitos outros empregos ocupados por estrangeiros” (Antara, 23-03-2000).
(sobre a participação timorense na administração
pública, ver Observatório Timor-Leste, Employment, EMP01
e, a publicar em breve, EMP02).
-
A aceitação generalizada dos representantes do CNRT não
é, por si só, garante de espírito democrático;
no relatório do Secretário Geral das NU vêm assinalados
actos de violência contra um pequeno partido que não faz parte
do CNRT (NU, S/2000/738 Conselho de Segurança, 26-7-2000).
-
Sérgio Vieira de Mello criou diversas comissões para consultar
e envolver os timorenses nas decisões a tomar. As mais importantes
são a Comissão de Serviço Público e, sobretudo,
a Conselho Consultivo Nacional.
b) Conselho Consultivo Nacional, CCN
-
O mandato confiado à UNTAET dá ao AT funções
habitualmente atribuídas a um primeiro ministro, aumentadas pela
ausência de Parlamento, poder judicial e chefe de Estado. Para temperar
e partilhar este poder quase absoluto, Sérgio Vieira de Mello criou
o CCN, composto por 15 membros: 3 da UNTAET, 1 representando a igreja católica,
7 do CNRT e 3 dos partidos pró Indonésia (respectivamente
78,5 e 21,5 % dos votos no referendo de Agosto 1999) e presidido por ele
próprio.
-
“O CCN tem sido, para a UNTAET, o único meio de ouvir e
dar resposta às necessidades dos timorenses e, para estes últimos,
de participarem na tomada de decisão de políticas importantes,
cujas consequências perdurarão muito para além da presença
limitada da UNTAET no território. (...) A UNTAET beneficiou grandemente
da estreita cooperação com os grupos de timorenses representados
no CCN, particularmente com o CNRT liderado pelo Sr. Gusmão. (...)
Mantendo a sua unidade [estes grupos] têm mostrado que podem ser
um elemento chave para assegurar uma transição suave para
a independência” (NU, SG S/2000/53, 26-1-2000).
-
Embora fosse apenas consultivo, o CCN – muitas vezes equiparado a um mini-parlamento
- visava aproximar a administração provisória das
realidades e sensibilidades timorenses. A prática mostrou que podia
também transformar-se numa simples câmara timorense para legitimar
as decisões tomadas pela UNTAET. Em 30 de Dezembro, os responsáveis
da UNTAET apresentaram aos membros timorenses do CCN cinco projectos de
leis para aprovar, sem possibilidade de consultar legisladores e com as
dificuldades inerentes ao facto do debate decorrer em língua inglesa.
Outro exemplo dos limites da capacidade do CCN influenciar as decisões
da UNTAET [Banco Mundial e FMI estão na sombra] foi o da adopção
do dólar americano como moeda oficial, quando a preferência
dos timorenses era para o escudo português.
-
Criticado por tomar decisões pouco transparentes, o CCN, viria a
ser remodelado e alargado, em Julho, tomando o nome de Conselho Nacional
de Timor Leste (CNTL).
c) Comissão do Serviço Público, CSP
-
(Em Janeiro foi criada a Comissão do Serviço Público
encarregada de supervisionar o funcionamento da Administração.
A CSP elabora as políticas de recrutamento, promoção
e salários, direitos e deveres dos funcionários públicos.
O AT obriga-se a consultar a CSP sobre todas as matérias que dizem
respeito ao serviço público. Para o nível mais elevado
da administração, o AT escolherá o candidato numa
curta lista elaborada pela CSP, excepção feita para as nomeações
na área da Justiça. Dos 7 membros da CSP, escolhidos pelo
AT, dois serão peritos internacionais, os outros serão nomeados
depois de consulta ao CCN. O presidente da CSP é nomeado pelo AT.
As decisões deverão ser tomadas tanto quanto possível
por consenso. (abbrev.)) (Lei/2000/3-21-2-2000).
-
A autoridade da CSP e da UNTAET para fixar os vencimentos dos funcionários
públicos não impediu o representante do FMI em Timor Leste
de tecer críticas à decisão tomada por aqueles pagarem
vencimentos superiores aos praticados na função pública
indonésia (Dow Jones Newswires, 21-7-2000). O FMI não teve
em consideração a inflação provocada em Timor
Leste pela presença dos funcionários e militares internacionais.
d) Aumento das criticas à actuação da UNTAET
-
As críticas à UNTAET, e aos estrangeiros em geral, aumentaram
face ao abismo que separa timorenses e estrangeiros, bem como à
lentidão verificada na reconstrução. Um alto funcionário
da UNTAET, o professor Chopra, apresentou a sua demissão em Março
denunciando os “funcionários superiores mais interessados na
sua promoção pessoal do que na reconstrução”
(Sydney Morning Herald. 13-3-2000).
-
O New York Times resumiu em breves imagens a situação:
“Dili não representa um quadro bonito, com um mundo de expatriados
marginal sobre um fundo de destruição e de pobreza. Os estrangeiros
ricos, com carros, escritórios, água quente, barbecues de
fim-de-semana. Os timorenses sem praticamente nada.” “Eles não
podem colocar uma mesa na rua para vender coisas”, diz um funcionário
das NU “não só porque não têm nada para vender,
mas também porque não têm a mesa” (...) "Há
uma impaciência crescente”, diz Milena Pires [que acaba de ser
eleita vice-presidente do CNTL] “e agora alguns começam a dizer:
O.K., aguardamos dois anos até que as NU se vão embora, depois
começaremos a reconstruir” (New York Times, 22-4-2000).
-
Sérgio Vieira de Mello reconhece razão a algumas críticas,
mas atribui as culpas à burocracia: “Considerando o mandato da
missão, as palavras não são suficientes para descrever
os desafios enfrentados dia após dia, e as Nações
Unidas estão pouco equipadas para resolver muitos deles (...) As
necessidades da missão têm evidenciado as fraquezas das práticas
administrativas das NU, que devem ser alteradas (...) Deve ser dada à
missão autoridade para utilizar o seu orçamento com a flexibilidade
necessária. Só se poderá realizar a tarefa de que
fomos encarregados, se os procedimentos administrativos forem adaptados”
(NU, Press Release SC/6882, 27-6-2000).
-
Em Maio, S. Vieira de Mello apresentou aos dirigentes timorenses duas opções
para as futuras relações UNTAET-Timorenses: por um lado,
um modelo tecnocrático, segundo o qual a administração
seria totalmente composta por timorenses, de modo a constituir uma administração
pública totalmente nacional para a independência; por outro
lado, um modelo político, em que os timorenses partilhariam a responsabilidade
do governo com a UNTAET. Diversos ministérios do governo provisório
estariam nas mãos de timorenses que teriam a responsabilidade política
dos seus ministérios. De acordo com o AT, “esta última
opção era um presente com duas faces, uma vez que os timorenses
partilhariam com a UNTAET o papel de “punching bag”. O CNRT acolheu
o modelo político com entusiasmo, e é este que está
actualmente em processo de implementação (NU, Press Release
SC/6882, 27-6-2000).
-
Peter Galbraight forneceu alguns detalhes sobre esta proposta: “a liderança
política poderia beneficiar com um período de co-governo
com a UNTAET, no qual ministros internacionais e timorenses trabalhariam
em conjunto. (...) A UNTAET necessita apenas manter as pastas dos Negócios
Estrangeiros, da Defesa e da Justiça. A distribuição
concreta das pastas seria somente uma questão de negociação,
disse Galbraith. No decrrer do tempo, os Timorenses assumiriam todas as
funções à excepção das constitucionalmente
reservadas à UNTAET. Os actuais chefes dos departamentos passariam
a chefes de gabinete dos respectivos ministros. No seu tempo, também
estes seriam substituídos por timorenses. A criação
da nova estrutura seria uma excelente oportunidade para alargar o papel
do CCN. Tanto os ministros timorenses, como os da UNTAET deveriam ser responsáveis
perante o CCN” (UNTAET Briefing 30-5-2000). top
3. A partir de Julho - Partilhar o poder e as críticas.
a) Governo misto UNTAET-timorenses
-
No dia 15 de Julho, S. Vieira de Mello anuncia o governo misto:
-
UNTAET: Polícia e serviços de segurança: Jean-Christian
Cady, francês - Assuntos políticos: Peter Galbraith, americano
- Justiça: Gita Honwana-Welch, moçambicana - Finanças:
Michael Francino, canadiano.
Timorenses: Administração Interna (sem
as polícias): Ana Pessoa - Infra Estruturas: João Carrascalão
- Assuntos Económicos (agricultura, comercio, industria, recursos
naturais...): Mari Alkatari - Assuntos Sociais (educação,
saúde, trabalho...): Padre Filomeno Jacob.
S. Vieira de Mello anunciou também a nomeação de
Mariano Lopes da Cruz, como Inspector-Geral do Governo (UNTAET Briefing,
15-7-2000). Este tinha sido indigitado como possível ‘ministro’
da Administração Interna (Lusa, Dili, 12-7-2000).
Ramos Horta foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros do governo
transitório (RDP, Lisboa, 19-10).
b) Conselho Nacional de Timor Leste, CNTL
-
Para os representantes dos distritos, cada um tem o direito a nomear unicamente
quem vai representar o seu distrito no Conselho Nacional. Os formulários
estão disponíveis no gabinete do Governador e nos distritos.
Procedimentos similares vão ser seguidos para as organizações
cívicas (UNTAET Briefing, 8-8-2000).
-
O chefe da UNTAET anunciou a composição do CNTL, suposto
futuro Parlamento de Timor Leste. Segundo S. Vieira de Mello, os 36-membros
do Conselho Nacional são todos timorenses - 13 dos partidos políticos
(4 pró Indonésia), 13 dos distritos, 7 de organizações
cívicas e 3 de grupos religiosos. 13 dos 36 representantes são
mulheres. Dois lugares encontram-se vagos. Xanana Gusmão foi eleito
presidente do CNTL.
-
"O Conselho Nacional reflecte largamente a sociedade timorense, assim
como a actual realidade política”, diz a missão das NU
num comunicado emitido em Dili. O CNTL, inaugurado a 23 de Outubro, é
o resultado de um processo de selecção, que incluiu a consulta
aos timorenses em todo o território, e dos esforços de S.
Vieira de Mello para dar mais equilíbrio ao novo órgão,
disse a UNTAET (NU, 20-10-2000). top
4. Condições para a independência
-
A UNTAET tentou nas últimas semanas determinar os critérios
mínimos necessários para a independência de Timor Leste,
incluindo o estabelecimento de mecanismos de manutenção da
segurança, de um sistema judicial credível e de atingir um
patamar de reconstrução suficiente para permitir o funcionamento
da administração após a independência (NU, Press
Release SC/6882, 27-6-2000).
-
“Politicamente, dois componentes seriam necessárias para a transição
[disse S. Vieira de Mello]. "Eles seriam um processo constitucional
com eleições democráticas, assim como uma cultura
política que requisesse à liderança política
decisões transparentes perante as quais assumissem a responsabilidade.
A última palavra sobre a estrutura política caberia aos timorenses.
Seria possível prever que as eleições e talvez a independência
teriam lugar entre 30 de Agosto e Dezembro do próximo ano. A decisão
final dependeria dos progressos no cumprimento das metas. As eleições
seriam para a Assembleia Constituinte” (NU, SC/6882, 27-6-2000).
-
O chefe das NU em Timor Leste disse que espera começar em Setembro
as conversações sobre o tipo de governo que o território
quer adoptar quando aceder à independência, talvez no final
do próximo ano. Sérgio Vieira de Mello disse que as NU planeiam
levar a cabo “um processo de consulta verdadeiramente alargado” logo
após o congresso do CNRT em Agosto. “Gostaríamos que o
chefe da aldeia, da assembleia de sub-distrito e do conselho de distrito
nos dissessem o que pensam” sobre assuntos importantes, inclusive se
o país quer um sistema presidencial ou parlamentar, disse Vieira
de Mello. Depois de recolher estas respostas, a ideia é criar um
comité de timorenses e peritos constitucionais internacionais para,
em conjunto, elaborar um texto [Constituição] preliminar
“que esperamos possa estar pronto em Março-Abril do próximo
ano” (AP, Nações Unidas, 29/6/2000).
top
5. Eleições
-
Um ex-funcionário da UNTAET, Sr. Della- Giacoma, critica as hesitações
dos que julgam prematuro fazer eleições em Timor Leste. “depois
de sete meses de governo da UNTAET não foram dados passos concretos
pelas NU para eleger personalidades locais que possam participar no processo
de tomada de decisão(...) A UNTAET nomeou muitos timorenses para
numerosas estruturas de consulta, incluindo para os conselhos consultivos
de distrito, e quer em breve nomear ‘ministros’ timorenses. Mas ao fazê-lo,
as NU mostraram uma preferência pelas antigas elites lusofonas e
alienaram a juventude timorense maioritária. Pela sua natureza,
as estruturas nomeadas são antidemocráticas(...) Alguns dizem
que [as eleições] podem complicar desnecessariamente o tecido
político, fragmentar a coligação de partidos que constituem
o CNRT e politizar a comunidade. Isso pode indubitavelmente tornar a situação
mais complexa para o pessoal estrangeiro da UNTAET e assim trazer novos,
e competitivos, actores para o palco. Porém, existe um tom condescendente
nos argumentos que advogam que os timorenses não estão prontos
para a democracia. A participação no referendo de Agosto,
muitas vezes sob a ameaça de morte, contradiz aqueles argumentos”
(Asian W. S. Journal, 22-6-00)
-
Uma missão eleitoral do Departamento dos Assuntos Políticos
das NU chegou a Dili em 20 de Julho. O objectivo da visita é de
recolher as informações necessárias para um plano
de acção para o processo eleitoral. A missão quer
avaliar a capacidade dos actores locais e regionais para a organização
e realização de eleições democráticas
(...), além disso um grupo de educação cívica
do Serviço de Assuntos Políticos discutiu com ONG locais
estratégias para distribuir informações sobre as eleições
junto da população (UNTAET, 21-7-2000).
-
Numa primeira fase, que se espera que termine em seis semanas, o sistema
eleitoral e a educação correspondente devem estar preparados.
A segunda fase é consagrada ao recenseamento, e a terceira à
preparação logística das eleições (UNTAET
Briefing, 10-10-2000)
-
O Serviço de Assuntos Políticos da UNTAET quer falar com
os partidos políticos timorenses e as ONG amanhã, 14 de Outubro,
para discutir o projecto de lei sobre o registo dos partidos políticos.
Os dez partidos existentes em Timor Leste e seis ONG foram convidados a
participar (UNTAET Briefing, 13-10-2000). top
Conclusão:
Xanana Gusmão acusou a missão das NU de ter falhado no envolvimento
dos timorenses no processo transitório para a independência.
“Não
estamos interessados numa herança de carros e leis, nem estamos
interessados numa herança de planos de desenvolvimento para um futuro
concebido por outros que não os timorenses. Não estamos interessados
em herdar uma racionalidade económica que coloca de lado a complexidade
social e política da realidade timorense, nem desejamos herdar os
pesados mecanismos de tomada de decisão e implementação
de projectos nos quais o papel dos timorenses é o de dar o seu consentimento
como observadores ao invés de agentes activos que deveríamos
começar a ser.” (Sidney Morning Herald, 10-10-2000).
top
Nota: Documentos e informações
recolhidos sobre este assunto foram reunidos pelo Observatório Timor
Leste num caderno temático “Government - ref. GOV01” de 40 páginas
(para mais informações e encomendas contactar o Observatório
Timor Leste). top
Observatório para o acompanhamento
do processo de transição em Timor Leste um programa da 'Comissão
para os Direitos do Povo Maubere'
Coordenadora: Cláudia Santos
Rua Pinheiro Chagas, 77 2ºE - 1069-069
Lisboa - Portugal
tel.: 21 317 28 60 - fax: 21 317 28 70 - correio electrónico:
cdpm@esoterica.pt
URL: http://homepage.esoterica.pt/~cdpm
Observatório
Timor Leste
Duas Organizações Não Governamentais portuguesas,
a COMISSÃO PARA OS DIREITOS DO POVO MAUBERE (CDPM) e o grupo ecuménico
A PAZ É POSSÍVEL EM TIMOR LESTE que, desde o início
da década de oitenta, se solidarizam com a causa do Povo de Timor
Leste, tomaram a decisão de criar o OBSERVATÓRIO TIMOR LESTE.
A vocação do Observatório Timor Leste é, no
quadro das recentes alterações do regime de Jacarta face
a Timor Leste, o acompanhamento, a nível internacional, do processo
negocial e, no interior do território, do inevitável período
de transição que se anuncia.
E-mail: cdpm@esoterica.pt
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